terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Petrarca:Sonetos em Análise - Parte II


Continuando daqui...

Petrarca demonstra imensa musicalidade em seus sonetos. Investindo em rimas do tipo A-B-A C-D-C, o autor transborda de ritmo e perfeição: vê-se extremo emprego de técnica e uma idealização exagerada da mulher amada. Assim como no poema analisado anteriormente, o soneto de número 13 trata de um tema parecido.


ITALIAN
ENGLISH
Quando fra l'altre donne ad ora ad ora
Amor vien nel bel viso di costei,
quanto ciascuna è men bella di lei
tanto cresce 'l desio che m'innamora.

I' benedico il loco e 'l tempo et l'ora
che sí alto miraron gli occhi mei,
et dico: Anima, assai ringratiar dêi
che fosti a tanto honor degnata allora.

Da lei ti vèn l'amoroso pensero,
che mentre 'l segui al sommo ben t'invia,
pocho prezando quel ch'ogni huom desia;

da lei vien l'animosa leggiadria
ch'al ciel ti scorge per destro sentero,
sí ch'i' vo già de la speranza altero.
When from hour to hour among the other ladies
Love appears in her beautiful face,
by as much as their beauty is less than hers
by so much the desire that en-amours me grows.

I bless the place, the time, and the hour
in which my eyes gazed to such a height,
and I say: My spirit, give thanks enough
that you were then found worthy of such honour.

From her to you comes loving thought,
that leads to highest good, while you pursue it,
counting as little what all men desire:

from her comes that spirit full of grace
that shows you heaven by the true way':
so that in hope I fly, already, to the heights.

Cá estamos em Petrarca, na fronteira entre o amor cortês e o amor romântico (ver em http://litrenascpetrarquismo.blogspot.com.br/2016/12/a-maneira-petrarquista.html), , para o surgimento da ideia de um amor à primeira vista e inalcançável, inconsumavel. Neste, o soneto de número 13, é importante notar como o poeta pinta a figura de sua amante. E me refiro a pintar como no sentido mais arte renascentista da palavra: uma Vênus de Milo intocada, perfeita, de traços proporcionais, moldada a mão por um artista. A admiração do eu-lírico por sua signora é tremenda, e que Deus abençoe “the place, the time, the hour” quando este pôs seus olhos nela. É engraçado pensar que, devido à falta de descrição palpável da moça além de que ela é estonteante (seria morena? alta?), toda e qualquer pessoa pode projetar uma face, um modelo nos linhas do poema. 

Assim como no soneto anterior, vê-se Petrarca derretido de amores por alguém intocável, em uma altura para a qual ele apenas espera poder voar (in hope I fly). Traçando um paralelo entre ambos os sonetos, é possível ver que o eu-lírico constrói uma figura relacionada ao sentido da visão, da beleza física, tanto como um blind man, cego pela amada no primeiro soneto como o homem que agradece aos céus pela simples oportunidade de poder olhar para ela no segundo; está aí o sujeito do amor que não é marcado, arranjado pelos pais: é o amor que surge da beleza da amada.

Nas palavras do próprio Petrarca, está aqui what all man desire: o amor, a amada, a beleza única dentre todas. Como pôde ser constatado em ambos os sonetos analisados, Petrarca era um poeta que idealizava, anjeificava (vamos de neologismo, sim?) as mulheres, num soneto, uma forma de rimar perfeitamente calculada na qual cada sílaba conta - literalmente. 



 [2] PETRARCA, Francesco. Canzoniere. Tradução de A.S.Kline. Disponível em: <http://petrarch.petersadlon.com/canzoniere.html?poem=13>

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